“Mercado negro” de monografias jurídicas agita professores e alunos

“Mercado negro” de monografias jurídicas agita professores e alunos

Gazeta Maringá

Professores que elaboram trabalhos acadêmicos sob encomenda e alunos que compraram TCCs revelam como funciona esse mercado paralelo

Nos murais das universidades ou em sites da internet, os anúncios apregoam o mesmo produto: monografias e trabalhos universitários, inéditos e feitos sob encomenda. Quem presta o serviço garante sigilo total, mas, nos corredores das faculdades, nomes de quem compra e contatos de quem vende os trabalhos correm de boca em boca. Apesar de não ser crime, a prática é condenada eticamente no meio acadêmico. Por causa disso, o “setor” ostenta tintas de um mercado negro.

 A Gazeta do Povo ouviu dois ex-alunos que compraram seus respectivos trabalhos de conclusão de curso (TCCs) e quatro professores que vivem do comércio de monografias. Eles mesmos concluem: esse tipo de comércio é mais comum do que se imagina.

 “É pura hipocrisia. Ninguém dá a cara, mas todo mundo sabe quem compra e quem vende”, afirma a pedagoga formada na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), que assume ter pagado para obter seu TCC. “É fácil. Está tudo à mão”, ressalta.

 As facilidades parecem mesmo serem tentadoras. Em um mês, o universitário pode ter em mãos a “sua” monografia supostamente inédita. Os preços partem de R$ 600, mas podem chegar a R$ 5 mil por trabalhos mais bem elaborados. Mesmo sem sair de casa, o aluno consegue um TCC a partir da internet. A reportagem testou um dos sites “especializados” no comércio. O retorno veio em dois dias.

 “Em resposta à sua solicitação declaramos que o valor da pesquisa completa (para qual seguramente sugerimos 50 laudas tratando-se de Monografia), é de R$ 750 (sic)”, diz a resposta da empresa, que sugere um suporte de apresentação para a banca, com Power Point, por mais R$ 160. A julgar pelos erros de pontuação, parece que a empresa não é lá muito confiável.

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 Sem garantia

 Em geral, a qualidade não é garantida. O aluno nem pode ter certeza de que não está comprando um produto de plágio. Até quem fornece os TCCs reconhece a promiscuidade do segmento. “O problema é que é um mercado completamente prostituído e sem vergonha. Muita gente [professores] só faz isso para ganhar dinheiro e só faz porcaria”, reclama uma professora que há 14 anos elabora monografias.

 De acordo com os vendedores de trabalhos, os clientes provêm de todas as áreas, principalmente de Direito e licenciaturas em geral, especialmente Pedagogia. Muitas vezes, o que motiva os universitários a recorrerem ao mercado negro é a falta de tempo. É o caso do hoje advogado, que, quando cursava o último ano de Direito, abriu mão de fazer o próprio TCC para estudar para o exame da Ordem dos Advogados do Brasil.

 “Como queria realizar as duas obrigações [monografia e exame] em conjunto, decidi comprar o TCC”, resume o ex-universitário, que foi aprovado com nota máxima. Ele afirma que, na turma dele, pelo menos outras quatro pessoas também compraram trabalhos.

 Fraudes de alunos podem ser detectadas por orientadores

 As universidades têm recursos pedagógicos que podem detectar eventuais fraudes por parte dos alunos. Professores consultados pela reportagem mencionam que, ao longo da elaboração do projeto e da orientação do trabalho, é possível saber se o aluno fez a produção acadêmica ou se recorreu a subterfúgios, como plágio ou compra de monografia.

 “Pela orientação, o professor tem condições de verificar se o aluno tem conhecimento e fundamentação do que está sendo colocado no trabalho. Não vou dizer que isso garanta 100%, mas obriga o aluno a conhecer o tema e a demonstrar ao orientador que está pesquisando e desenvolvendo o trabalho”, disse o pró-reitor acadêmico da PUCPR, Eduardo Damião.

 A professora da Universidade Tuiuti do Paraná, Cláudia Giglio, acrescenta que, além dessas etapas, o aluno ainda precisa apresentar seu trabalho a uma banca examinadora, que também pode perceber fraudes. “Por mais que o aluno que comprou um TCC leia o trabalho, ele não consegue se apropriar efetivamente do conteúdo. Então aí ele pode ser desmascarado”, aponta.

 Prejuízos

 Além de correr o risco de ser reprovado, o universitário que recorre ao mercado também sofre prejuízos educacionais irreparáveis. “Ele está desperdiçando uma oportunidade fantástica de aprender a pesquisar e de se preparar para um tema no qual escolheu se aprofundar. Está deixando de desenvolver uma competência necessária ao exercício da profissão”, avalia Damião.

 “Um aluno que tem essa atitude já mostra um caráter duvidoso. Que tipo de profissional será esse, se já na formação ele tentou enganar a sociedade?”, questiona Cláudia.

Fonte: Gazeta Maringá

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Um comentário em ““Mercado negro” de monografias jurídicas agita professores e alunos

  1. Infelizmente tal “comércio” corre a “céu aberto” na internet e acredito que quem mais perde com essa situação é o próprio aluno que perde a chance de se aprofundar sobre o assunto e muitas vezes deixando a mostra a compra do trabalho no momento da defesa oral, já que não domina o tema para sobre ele dissertar em banca. Perde a riqueza e a beleza da pesquisa e da sensação de trabalho cumprido.

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