“Só temos necessidade da moral por falta de amor”, diz Comte-Sponville

“Só temos necessidade da moral por falta de amor”, diz Comte-Sponville

WMF editora

Editora WMF Martins Fontes acaba de lançar o ‘Do Corpo’, um livro de aforismos produzido pelo filósofo francês André Comte-Sponville . A obra foi escrita em 1977, mas só publicada neste ano – tanto na França quanto no Brasil. Nela, o autor passeia por Freud, Espinosa, Platão, Marx, Kant. Abaixo, confiram a entrevista exclusiva que ele deu ao nosso blog, dizendo por que considera “proibido não proibir”  e por que a moral e a ética são, para ele, da importância da virtude.

O ‘Do Corpo’ foi o primeiro livro que escreveu, só agora publicado. O que mudou em você de lá para cá?
Quando escrevi esse livro, eu tinha 26 anos. Era ateu, materialista, discípulo, à minha maneira, de Epicuro, Espinosa, Marx, Freud. Mas tentava também inventar minha própria filosofia! Ora, eu sabia que o que me interessava era, sobretudo, a ética, a sabedoria, a espiritualidade, ou seja, a vida do espírito ou, de fato, da alma. Isso era ainda mais importante para mim porque os filósofos então em voga, aliás muito talentosos (Deleuze, Althusser, o Foucault inicial), pareciam ter renunciado à concepção tradicional de que a filosofia era uma arte de viver, ao mesmo tempo que uma arte de pensar: que ela tendia à felicidade, à paz da alma (a ataraxia de Epicuro e dos estoicos), em suma, à sabedoria. Eu, ao contrário, queria reatar com essa tradição.

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Você disse que seu livro poderia chamar-se também ‘Da alma’, mas que ‘Do corpo’ gera menos confusão. Poderia explicar melhor essa escolha?
Se a filosofia não serve para viver melhor, dizia a mim mesmo, para que a filosofia? Não filosofamos para passar o tempo, ou para brincar com os conceitos: filosofamos para salvar a nossa pele e a nossa alma! Portanto, de fato, poderia ter chamado meu livro ‘Da alma’. Mas o risco, então, era que fosse visto como um ensaio espiritualista, que era o contrário da minha posição. O que eu queria oferecer era uma teoria materialista da vida do espírito. Minha ideia, extraída de Espinosa, era que “a alma e o corpo são uma única e mesma coisa”. Portanto, eu poderia chamar meu livro tanto ‘Do corpo’ como ‘Da alma’. Mas a primeira forma indicava com mais clareza a orientação materialista do meu pensamento. O que eu procurava, no fundo, era uma filosofia materialista que resultasse numa sabedoria para nosso tempo. E é isso, de fato, que o livro propõe.

Por que publicar só agora textos que escreveu há trinta anos?
Eu teria gostado de publicá-los à época! Mas era uma coletânea de aforismos, e é um gênero que os editores veem com reservas.  Um deles me disse: “Os aforismos só se vendem quando o autor já é famoso e, de preferência, já morreu!”. Eu era vivo e completamente desconhecido. Os editores, portanto, recusaram-se a publicar meu manuscrito. Claro que fiquei decepcionado, mas não desanimado. Tinha jurado que algum dia o publicaria, quando fosse, se não famoso, pelo menos bastante conhecido para interessar um editor. O tempo passou, até o dia em que disse a mim mesmo que tinha chegado a hora. É um livro pelo qual sempre tive uma ternura especial. Tem os defeitos e as qualidades da juventude: o entusiasmo, o frescor, a candura, a autenticidade, uma forma de ingenuidade filosofante. Mas esse, apesar das imperfeições, ou por causa delas, talvez seja o que mais se parece comigo.  Expliquei-me no longo prefácio que, este sim, redigi recentemente. É decerto meu texto mais autobiográfico, mais íntimo, e que mais diz sobre minha trajetória filosófica e existencial.

Você poderia identificar alguns pontos de seu pensamento que se aprofundaram e se confirmaram nesses trinta anos? E outros que foram deixados de lado ou reformulados?
O essencial foi confirmado: o ateísmo, o materialismo, o racionalismo, a distinção entre a moral e a ética, a crítica do livre-arbítrio, o distanciamento do sujeito ou do eu, a importância atribuída à arte, à política, à espiritualidade (e a recusa a confundi-los), enfim certa busca da felicidade ou da sabedoria. Parece-me que nada do que eu dizia então foi deixado de lado nos meus livros seguintes. Por outro lado, vários pontos foram consideravelmente  especificados ou repensados. Isso é verdade, por exemplo, quanto à distinção entre o valor e a verdade, e também entre a moral e a ética. Na época, muito influenciado pelos livros de Deleuze sobre Espinosa e Nietzsche, eu tendia a tomar o partido da ética contra a moral. Mais tarde, compreendi melhor que não cabia escolher entre a moral e a ética nem confundi-las: tínhamos necessidade das duas e da diferença entre as duas! Isso resultará em ‘Valor e verdade’, quanto ao aspecto teórico, e em ‘Pequeno tratado das grandes virtudes’, quanto ao aspecto prático. O mesmo quanto à minha relação com Marx: só mais tarde, na verdade, distinguirei o que retenho de sua obra (uma concepção materialista da história) e o que recuso (o cientificismo e a utopia): dediquei a isso um longo capítulo de meu ‘Tratado do desespero e da beatitude’, antes de voltar ao tema em ‘O capitalismo é moral?’. Também evoluí com relação à sabedoria: aos 26 anos, eu a levava um pouco a sério demais. Hoje entendo melhor que a sabedoria é apenas um ideal, no qual é importante – como em todos os ideais – não acreditar exatamente. Digamos que foi o que a vida me ensinou, muitas vezes dolorosamente, e que Montaigne me ajudou a compreender e a aceitar.

Digamos que foi o que a vida me ensinou, muitas vezes dolorosamente, e que Montaigne me ajudou a compreender e a aceitar. Expliquei-me muitas vezes a esse respeito, por exemplo, em ‘O amor, a solidão’ ou em ‘A felicidade’, desesperadamente. A sabedoria não existe: há apenas sábios, e eles são muito diferentes, e nenhum, é claro, acredita na sabedoria. Finalmente, e talvez seja isso o mais importante, também evoluí na minha relação com a tradição judaico-cristã. Aos 26 anos, eu ainda tinha um pouco do arrebatamento do apóstata: eu perdera a fé havia menos de dez anos, e deixara a igreja, como se diz em meu país, “batendo a porta”. Hoje continuo sendo igualmente ateu, mas percebo melhor a grandeza humana da tradição judaico-cristã e, especialmente, da mensagem evangélica. Digamos que me reconciliei com o adolescente cristão que fui – não, certamente, no que se refere à fé, mas no que diz respeito à moral e ao amor. Isso resultará em ‘O espírito do ateísmo’. Hoje me defino como ateu fiel e apaziguado. Em ‘Do corpo’ eu era, antes, um ateu infiel e colérico.

 Em ‘O Corpo’, você antecipa algo do que viria a ser a síntese do seu pensamento teórico – claramente exposto, mais tarde, em ‘O Pequeno Tratado das Grandes Virtudes’?
O ‘Pequeno tratado’ não é uma síntese da minha filosofia, é apenas a apresentação de sua parte ética e moral. Numa filosofia, não há só isso, há também a metafísica, a espiritualidade, a estética, a filosofia política, a teoria do conhecimento. A verdadeira “síntese” da minha filosofia deve ser buscada, antes, em meu ‘Tratado do desespero e da beatitude’ ou em meu ‘Dicionário filosófico’. Por outro lado, o que se encontra no ‘Pequeno tratado’, e que na verdade tinha sido antecipado em ‘Do corpo’, é uma ética da virtude – diferente de uma moral do dever, tal como se encontra em Kant. Digamos, para ser breve, que o dever está do lado da obrigação, da submissão, da coação, ao passo que a virtude, ao contrário, está do lado da liberdade, da potência, do desejo em ato. Mas o que o Pequeno tratado mostra, e que em ‘Do corpo’ estava pensado de maneira incompleta, é que os dois podem e devem estar juntos. Se fôssemos sábios, a ética seria suficiente: a virtude nos dispensaria de todo dever. Mas estamos longe disso. Só temos necessidade da moral por falta de amor; é o que dá razão a Espinosa. Mas é por isso também que temos uma necessidade terrível de moral: pois de amor, na verdade, somos capazes muito pouco, muito mal e muito raramente. É nesse sentido que Kant não está completamente errado, ou melhor, é nesse sentido que não podemos prescindir completamente de moral.

Como assim?
Só compreendi isso tudo de verdade no dia em que tive filhos, que precisei educar. Quem pode acreditar que o amor seja suficiente para isso? Também temos necessidade da lei, como diz Freud, do superego, da moral. “É proibido proibir”, dissemos em 1968. Quando temos filhos, descobrimos que isso é mentira: que não é proibido proibir, e até, em matéria de educação, é proibido não proibir! Mas, aos 26 anos, eu não tinha filhos: acreditava que o amor ou a sabedoria pudessem bastar… Hoje sei que não é verdade. Mas é também o que dá a esse livro de juventude seu frescor, seu entusiasmo, que constituem uma parte, parece-me, de seu encanto…

Fonte: WMF editora

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