Cursos ensinam “muito sobre técnicas, mas nada sobre sabedoria”, afirma pesquisador.

O GLOBO, por Antônio Gois

Em entrevista ao jornal O GLOBO, o professor do Instituto de Educação da Universidade de Londres, Robert Cowen, criticou o formato dos cursos de MBA no mundo, e afirmou que, no Brasil, “a última coisa que vocês precisam é de um bando de tecnocratas pensando em como organizar o país”.

A seguir, trechos da entrevista, publicada no jornal O GLOBO:

O mercado de trabalho muda em velocidade cada vez maior, mas, no Brasil, por exemplo, os cursos universitários mais procurados seguem sendo os mesmos há décadas. Como as universidades podem se adaptar a essa realidade?

Robert: A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico diz há tempos que as pessoas terão não apenas que mudar de emprego, mas trocarão de carreira ao menos três ou quatro vezes na vida. Colocar um rótulo no diploma é certamente uma forma muito pobre de enfrentar esse desafio. Hoje, não importa o que os governos façam, o futuro será moldado pelos fenômenos da internacionalização e da inovação. As universidades, as fundações, as empresas, os institutos, todos terão que achar um jeito de se adaptar a essa realidade. As pessoas mais preparadas no mercado de trabalho sabem exatamente o perfil dos trabalhadores que querem contratar, e vão achar um jeito de treiná-los, mesmo que dentro das empresas. No Japão, por exemplo, os empregadores não se importam tanto com qual diploma os jovens têm, desde que seja de uma boa universidade, pois eles serão treinados internamente.

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No Brasil, há quem critique o fato de darmos muita ênfase ao ensino de humanidades, e investirmos pouco em carreiras tecnológicas. Como o senhor se posicionaria neste debate?

Robert: É uma discussão internacional. No ano passado, tivemos um caso no Reino Unido de uma brilhante escritora e professora de Literatura da Universidade de Essex, Marina Warner, que se demitiu criticando os dirigentes daquela instituição. Ela disse que eles estavam preocupados apenas em formar professores nessas áreas, e não pensadores. Por que há tantos historiadores entre os executivos das empresas mais importantes na Inglaterra? Porque as pessoas no mercado têm que absorver um volume enorme de dados e ser hábeis em fazer julgamentos importantes diante de informações incompletas. É exatamente o desafio que um historiador enfrenta. Você não precisa de um MBA para isso, apesar de os MBAs terem virado um modismo.

Qual o problema com os MBAs?

Robert: Eles produzem um grande número de gerentes sem visão histórica ou sociológica. O diploma de MBA hoje em dia é até perigoso, pois dá as pessoas um excesso de confiança em suas habilidades para tomar decisões. É claro que há instituições de altíssimo nível que oferecem bons cursos, mas o MBA virou um negócio lucrativo que ensina muito sobre técnicas, mas nada sobre sabedoria. Não acho uma boa ideia deixar as decisões mais importantes nas mãos de técnicos. Eu me lembro do desastre americano no Vietnã, quando eles achavam que estavam ganhando a guerra porque faziam uma contagem de mortos de cada lado. Foi um erro gigantesco, baseado num modo extremamente tecnocrático e não intelectual de tomar decisões em cima dos dados. No Brasil, um país com tantas questões sociais importantes, certamente a última coisa que vocês precisam é de um bando de tecnocratas pensando em como organizar o país.

Leia a entrevista na íntegra aqui.

Fonte: O Globo

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